De Estagiário a CEO, lições de uma Jornada Real – As primeiras semanas com SQL Server #04
Por Fabrício Lima · CEO Power Tuning · Julho de 2026 · LinkedIn ↗ · YouTube ↗

Fala Pessoal,
No episódio 01 da nossa série contei para vocês detalhes de como escolhi fazer o curso de Ciência da Computação (ano de 2002).
No episódio 02 contei que meus primeiros anos de faculdade de TI não foram fáceis (2003 a 2005).
No episódio 03 contei como começou minha carreira profissional e como um NÃO que eu tomei acabou me jogando na área de banco de dados (2005 e 2006).
No episódio 04 vou contar como foram minhas primeiras semanas com SQL Server.
Como já citei anteriormente, eu nunca tinha logado em um SQL Server. Não sabia nem fazer um SELECT * FROM.
Veja o que aconteceu comigo ao entrar num setor que trabalhava 100% com banco de dados sem eu saber nada de banco de dados.
O encanto do primeiro dia de trabalho em uma empresa grande
Primeiro dia de trabalho, janeiro de 2006. Cheguei lá e fiquei encantado.
Prédio grande, bem corporativo, todo mundo de uniforme, um uniforme meio social, feito pela empresa. Naquela época era assim, hoje quase ninguém mais faz. Toda comunicação, tudo com cara de empresa grande que funciona.
Lembra que no episódio anterior eu contei do meu mini estágio de três meses no Ministério da Agricultura, ganhando R$ 200,00 pra dar suporte de infra? Era um órgão de governo, então não tinha nada daquela organização corporativa. A diferença foi gigante.
Eu entrei lá, vi tudo funcionando, e pensei: caraca, que legal. Vai ser muito bom trabalhar aqui!
Primeiro dia foi o de sempre: apresentaram a empresa, rodaram comigo pelas áreas, me mostraram tudo certinho. Trabalho 100% presencial, que na época era o único jeito que existia.
Uma semana sozinho com um livro em inglês
Chegou a hora da parte técnica. E o meu treinamento foi o seguinte: a galera estava toda atarefada, aí me entregaram um livro de SQL Server. Em inglês. =)
Vinte anos atrás, inglês não era tão comum como é hoje. Não tinha IA e inglês nas escolas que estudei não foram bons. Era eu, o livro e o que eu conseguia entender dele.
Fiquei uns sete dias assim. Lendo, testando comando, apanhando. Aprendi ali o que era um SQL Server, o que era um SELECT, WHERE, UPDATE, DELETE, como navegar pelas bases. Era SQL Server 2000 na época.
Passada a primeira semana a galera já estava me oferecendo ajuda e eu também já comecei a perguntar.
Eu podia ter ficado “emburrado” achando que não estavam me dando atenção que deviam. Mas o time estava atolado mesmo, não era má vontade com o estagiário. É raro mas acontece com frequência nas melhores empresas.
O que a Gerência da Informação fazia
Depois desses sete dias, o pessoal começou a me explicar de verdade qual era o trabalho.
O setor se chamava Gerência da Informação, e a Dacasa era uma Financeira grande, acho que a maior do Espírito Santo na época.
Lá dentro rodavam dezenas de rotinas direto no banco de dados. Cobrança de cliente, geração de fatura de cartão de crédito, empréstimos pessoais, em folha e etc. Tudo isso processava dentro do SQL Server e tinha uma área inteira só pra cuidar dessas rotinas.
Os famosos DTS, que eram os pacotes de carga do SQL Server 2000, o antecessor do SSIS, tinham uns 300 pacotes de DTS rodando nesse ambiente.
Então eu não precisei aprender só SQL Server. Precisei aprender a empresa. A lógica do negócio, o que cada área fazia, como funcionava a operação. Trabalhei bastante com a parte de cartão de crédito lá dentro.
Administração de SQL Server e Tuning você leva o aprendizado para qualquer empresa, o problema é parecido em todo lugar. Analista dentro de uma área que tem que conhecer o negócio é totalmente diferente. Você gasta boa parte do seu tempo de trabalho para aprender as regras de negócio. Lá tinha que conhecer de cartão, fatura, de limite, de lojista.
Esse conhecimento até pode te ajudar em um futuro emprego, como também pode não servir de nada.
Eu preferia aprender DBA desde o início, mas esse trabalho com o conhecimento das regras de negócio me fez evoluir nessa parte de entender problemas e conseguir entregar soluções de algo que eu não tinha conhecimento ainda. E fiquei muito bom nisso.
Trabalho, faculdade, trabalho
Minha rotina naquele ano era essa: trabalhava um pouco de manhã, saía pra faculdade à tarde (Ciência da Computação na Ufes era no turno da tarde), e voltava pra trabalhar mais um pouco no fim do dia. Estágio de 6 horas quebrado no meio pela aula.
E fora isso eu estudava em casa. Bastante. Fora do horário, sem ninguém me pedir, sem receber nada por aquilo. Eu queria mostrar serviço.
| ❝ Eram 6 horas de estágio por dia. Mas eu estudava muito em casa quando chegava e principalmente nos feriados e finais de semana. |
O dia em que o dono da empresa apareceu às 19h e eu estava sozinho
Esse foi o momento que mais me marcou desse período inicial.
Como eu ficava até mais tarde por causa da faculdade, era comum eu ser um dos últimos na sala. E num desses dias, apareceu o dono da empresa. O Leonardo Dadalto.
Cara sensacional. Uma das pessoas mais humildes que eu conheci. Dono de tudo aquilo e tratava todo mundo bem, do primeiro ao último. Aprendi muito de humildade com ele só de observar. A gente ainda se fala pelas redes sociais até hoje.
Ele chegou procurando a Carla Marchesi, minha chefe. E a Carla já tinha ido embora.
Eu podia ter falado “ela não está aqui não” e deixado ele se despedir ou deixar algum recado. Ninguém ia cobrar nada de um estagiário.
Mas eu chamei: “Ela não está Léo, mas como é que eu posso te ajudar?”
Ele explicou o que precisava. Era uma consulta de informação, dessas que a área recebia direto. Eu olhei e falei que conseguia resolver.
Aí ele sentou do meu lado. E eu fui lá fazer SELECT com o dono da empresa olhando a tela. Eu estava tremendo por dentro, mas o dedo foi normal ali no teclado. Fiz, saiu o que ele precisava, ele agradeceu e foi embora.
No dia seguinte ele mandou um elogio sinistro de mim pra minha chefe.
| ❝ Chamei a responsabilidade sem ter certeza de que ia conseguir. Foi a melhor decisão que tomei naqueles três meses. |
A lição do episódio
Repara que eu não fiz nada de mágico ali. Fiz um SELECT. O que mudou foi eu ter chamado o cara de volta em vez de deixar ele ir embora. Isso me custou zero e me rendeu um elogio do dono da empresa.
A vaga que, no papel, não era minha
Perto de eu completar três meses de estágio, abriu uma vaga de funcionário efetivo na área.
Só que a área tinha dois estagiários: eu, com três meses de casa, e outro rapaz que já estava lá havia mais de um ano. Ele conhecia muito mais da área, das rotinas, do negócio. No papel, a vaga era dele.
A vaga era interna, quem quisesse podia se candidatar. E eu pensei: por que não?
Eu vinha entregando. Depois daquela primeira semana parado no livro, comecei a produzir de verdade e a mostrar o potencial que eu tinha. Então fui pra cima da vaga.
E para minha felicidade, fui o escolhido.
Resultado em um e-mail do RH
Engraçado: eu não lembro de uma reunião solene pra me avisar. Acho que eu simplesmente vi um e-mail do RH dizendo que eu tinha sido efetivado para a vaga de Analista de Banco de Dados I. Não lembro se o RH me mandou indevidamente antes de minha chefe conversar comigo, mas chegou.
Eu virei pra trás na cadeira: “Carla, é sério isso? É verdade mesmo?”
E comemorei ali mesmo com o pessoal da área.
E aí vem o número, pra vocês entenderem o tamanho daquilo pra mim.
Estagiário eu ganhava uns R$ 500 (que já era mais do que o dobro do meu estágio anterior). Efetivado, fui pra R$ 1.500. Meu salário triplicou de uma vez.
| Pra quem não trabalhava e vivia do dinheiro do pai, R$ 1.500 era um valor absurdo. Eu fiquei muito feliz naquele dia. Estava RICO!!!! kkkk |
Lembra do Ronaldinho Gaúcho lá do episódio 03? Na entrevista eu falei que me espelhava nele porque ele era o melhor naquilo que fazia, e que eu queria ser o melhor possível naquela vaga. Não era discurso, foi exatamente por isso que eu me matei de estudar em casa naqueles três meses.
Insight
A oportunidade apareceu e em APENAS 3 meses eu consegui estar preparado. Se eu tivesse feito o básico, não estudado em casa, feito só o que me pediam, sem proatividade nenhuma, tenho certeza que perderia essa vaga e vai saber quando apareceria outra. Novamente: é o momento de sorte encontrando quem está preparado para ele.
Só que veio uma conta junto com essa promoção
Com a efetivação, a carga horária mudou também. Saí das 6 horas por dia de estagiário para 8 horas e 48 por dia.
E eu continuava na faculdade à tarde. E era a UFES, onde os professores eram conhecidos por serem carrascos dos alunos.
A rotina virou: trabalhar de manhã, faculdade à tarde, voltar no fim da tarde ou à noite pra cumprir o resto das horas. Quando precisava, eu ia sábado.
Pra isso caber, eu passei a pegar menos matéria por período, o que impactou na minha formatura.
O resultado
Em 2009, me formei na Ufes com cerca de um ano e meio de atraso. E formei sem reprovar em nenhuma matéria. Peguei menos por semestre, mas passei em todas.
Foi escolha minha e eu faria de novo. Trabalhar cedo com banco de dados me formou bem mais que a faculdade. Só que teve um custo, e eu vou contar qual foi.
A minha formatura durou 30 minutos
A minha turma se formou antes de mim. Fizeram festa, colação, tudo (e foi irado). Eu fiquei de fora porque estava atrasado.
A minha formatura foi assim: entrei numa salinha com outras 30 pessoas desconhecidas, fiquei 30 minutos, peguei o diploma e saí.
Foi isso, depois de todo aquele esforço pra passar no vestibular e dos anos de curso. Sem palco, sem musiquinha, sem colação de grau, sem faixa da família. Essa parte de formar com minha turma e ter a família lá presente eu gostaria de ter tido.
Contudo, tive os meus motivos.
Como minha turma já tinha formado, eu ia me formar com uma turma que não era a minha, gente que eu mal conhecia. Eu tinha acabado de me casar, então dinheiro era algo que não estava sobrando na minha conta do banco.
Resolvi não ter as festividades, mas se fosse com minha turma, participaria sim.
Falando em casamento, em 2009 eu também me casei sem festa. Eu e minha esposa Fabiana conversamos e tínhamos duas possibilidades: era casar rápido sem festa ou esperar um tempo até juntar dinheiro pra fazer. A gente escolheu casar mais rápido sem pensar duas vezes.
| ❝ Formatura sem festa, casamento sem festa. Como vocês podem ver, festa nunca foi uma prioridade na nossa vida. |
Dei um pulo no futuro em 2009 para falar do impacto que trabalhar quase 9 horas por dia gerou na minha formatura, mas agora vamos voltar para 2006 novamente para seguirmos nossa história nos próximos episódios.
| É de janeiro de 2006 que vem aquela linha que eu assinei em todo post do blog por mais de 10 anos: “trabalha com SQL Server desde 2006”. E 2026 é justamente o ano em que eu completo 20 anos nessa tecnologia. |
O que vem no episódio 05
Dois anos como analista, escrevendo T-SQL todo dia. Conto o desafio técnico que eu lembro até hoje, uma função de 1.500 linhas que eu tive que refazer em 15 dias, e a segunda habilidade que me destacou lá dentro, que não tem nada de técnica.
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A série até aqui
Episódio 01 – A escolha da profissão · 2002
Episódio 02 – Os primeiros anos de faculdade · 2003 a 2005
Episódio 03 – O início da carreira profissional · 2005 e 2006
Episódio 04 – As primeiras semanas com SQL Server · 2006 · você está aqui!
Episódio 05 – Como eu me destaquei como analista · em breve
E vocês? Do que vocês abriram mão no começo da carreira?
Eu abri mão de alguns anos de uma vida mais tranquila, de uma formatura completa com minha própria turma para poder trabalhar quase 9 horas por dia e me formar em Ciência da Computação em uma federal.
Em contrapartida, aprendi mais rápido e cresci profissionalmente mais rápido.
Comentem aí.
Abraços,
Fabrício Lima
CEO e fundador da Power Tuning
